domingo, 30 de setembro de 2007

Regressão de estilo

As palavras naturais escapam da boca, sorrateiras, lambidas em algum instinto animalesco e quase dês-contentes.
Auto-zoomorfização que me arranca a razão e mesmo assim prega as quatro partes no chão. O chão é quente. Quente também é aquilo que pulsa nas veias, um líquido vermelho qualquer que jorra e injeta meus olhos.
Ressaca constante da velha bebedeira de vinho e sangue tinto, mistura que mancha de tragicidade algo que devia ser tão, tão simples.
Como o mestre que é obra de seu criador sambo na esquizofrênica Caieira e me ensandece a vontade de resumir meus pedaços a intransitividade.
Fugi, corri, morri.
Devorar é cheio de possibilidades sempre esvaziadas.
Eu quero. Ponto. Mato qualquer complemento necessário.
Momento tão enjoativamente superlativo me acomete como um banho de tinta. Hoje é algo que não nascia ontem e terá se apagado amanhã. Sobram as linhas fracas da caricatura medonha descascando o doce aprisionamento.
Estar preso por meias vontades, por meias verdades, por meia covardia e por inteira miragem. Grita a epifania esganiçada. Todas as dúvidas se vão, todos os sentimentos se vão, todo desejo se nega, quase tudo decidiu pelo não.
Gotas que me transformaram em sinestesia fogem pelas frestas, entraram pela janela banhando de lua os pensamentos, agora saem envergonhadas por debaixo da porta.
Sobrevive o gosto avermelhado tão agradável aos meus ouvidos. Textura que não me diz nada canta a trilha sonora das minhas meias tristezas.
Melancolia juvenil. Os olhos verdes do herói daquele primeiro livro, os olhos igualmente verdes do monstro de Otelo, também aqueles que me viam apaixonada aos 15 anos e os que hoje me assistem vagos e perdidos na minha bipolaridade.
O mar é balanço enjoativo e instabilidade perpétua. Espreito com as esquinas de meus olhos mancos a curva que te contém adiante e todo esse sal me incomoda.
Apareceu bulindo com minhas idéias pregadas e eu te des-costurei. Deixa... Sem foto o porta retrato que sempre habitou vazio o meu criado mudo.
Mudo. Não fala.
Mudo. Vou pra outro lugar...
Contanto que seja longe o suficiente para me encontrar.

sábado, 11 de agosto de 2007

Jogo de Louça

Meu Pai morreu.
Não sei exatamente se no fim da noite ou durante o amanhecer. Não importa. Tropeçou em uma hora vaga e ficou no caminho, estirado e gelado no chão de carvalho.
Faltou a mim, contudo, a curiosidade para perguntar o que havia acontecido. Ataque cardíaco, aneurisma, pneumonia, coqueluche, hepatite, bebedeira, nó nas tripas... Basta saber que morreu.
De que morreu seu Pai?
Papai morreu de morte morrida.
Jazia ali adiante, taciturno e mal humorado como de costume, não fossem as mãos cruzadas sobre o peito estático talvez o desse por vivo.
Estirado em cima da mesa de jantar da sala. Onde ainda ontem almoçávamos peixe com batatas, onde muito em breve vou tomar café da manhã. Por cima das últimas gotas de suor frio de meu pai.
Eram oito velas. Quatro dentro do espelho outras quatro fora dele, enfeitavam as quinas da mesa os cotocos amarelados de cera.
Algo quase mágico acontecia na cena e eu miúdo e esquecido no canto da sala, como de castigo, assistia atento a peça. Mamãe melancólica olhava para o defunto, exibia o rosto inchado e um lenço molhado entre os dedos compridos.
Às vezes alguém atravessava a porta, silencioso e todo urubu, chegava com passos arrastados perto de Mamãe com um sorriso quase sentido e um abraço frouxo.
Uma pena, nos deixou tão jovem.
Meus sinceros pêsames.
Era um grande homem.
Não fique assim, com certeza ele esta em um lugar melhor,
É mais um anjo para orar por nós.
Papagaiavam as mesmas frases, Mamãe respondia com meio sorriso e, vez ou outra, algumas lágrimas. As vezes eu a via levando uma mão a boca e a outra aos cabelos, por um segundo passageiro eu tinha certeza que cairia no riso.
A gargalhada gutural, longa e asfixiante.
Recompunha-se. Depressa. Lançando então um olhar pudico e molhado de volta para meu Pai.
Eu a entenderia. Talvez me unisse a ela para que fizéssemos uma sinfonia familiar. A censura, contudo, seria mais do que poderia suportar.
Dona Francisca deixaria cair a bandeja de bolo de fubá, assados especialmente para a ocasião, Balthazar esmagaria o chapéu coco entre as mãos, talvez Dalva e Justina depois de um segundo perplexo correriam para acudi-la, seria necessário conter a loucura.
Horrorizados.
A tristeza deve se desfazer em lágrimas, de preferência contidas, os adultos não devem fazer barulho quando choram.
E se de repente me acometesse a vontade insana desse riso de Mamãe.
Não chorava, nem gemia. Não estava pálido, nem trêmulo. Só conseguia sentir culpa, justamente porque não sentia nada.
Onde se esconderam? A tristeza, a melancolia... O maldito desespero não vinha!
Inerte e munido de grandes olhos secos que perceberam a sala anormalmente escura naquela manhã. Nada além daquilo me incomodava, na verdade, a falta de luz quase me incomodava, não levantaria para abrir as cortinas ou acender o abajur...
O bolo foi sumindo, pedaço por pedaço, as xícaras sujas de café uma a uma apareciam pelos cantos.
Foi então que alguém levantou. Espreguiçou felinamente e arrastou os passos até Mamãe, evitando olhar diretamente para o defunto. Escolheu aleatoriamente e recitou mais algumas daquelas frases baixinho... Porque baixo? Certamente papai não reclamaria.
Enfim, meteu o chapéu na cabeça.
Meus pêsames.
Partiu.
Pouco a pouco encontravam coragem para sair. Deixar a viúva sozinha soava tão errado, mas o tédio eventualmente transbordava aqui e ali.
Meus pêsames.
Partia.
Meu pai seria para aquelas pessoas um pensamento breve ao longo do dia e a fofoca de amanhã. Não era importante o suficiente para sair na manchete do jornal, o obturario de poucas linhas parecia justo... Suficiente... Conformado.
Seria resumido ao assunto de D. Francisca na igreja, de Balthazar na barbearia ou de Dalva e Justina com as demais empregadas do bairro.
Sabe o homem alto que morava na 207 daquela rua ali atrás com nome de santo? Então! Ele morreu!
Deixou mulher e filho pequeno. Muito triste.
Ah! Acredita que a Carlota apareceu! Não achei que fosse dispor de tanta coragem e atrevimento! Ainda mais vestindo uma roupa tão pouco apropriada para um velório.
Não vi ninguém do trabalho... Poxa... Ele me parecia tão querido.
Papai viraria então assunto secundário, o bolo o café, a falta de chá, a tristeza de mamãe, meu destino, a roupa de Carlota seriam os personagens principais dessa comédia.
Não os condeno.
Realmente é um tópico pouco interessante para quem não tem um defunto estirado na mesa de jantar, em suas casas sobre a mesa apenas a toalha, os pratos, os copos e talheres.
Não haveria também a ausência da louça no dia seguinte.
Mamãe por fim se recolheu, Dalva e Justina levaram as xícaras para a cozinha.
Fiquei sozinho com restos de Papai, as velas, o espelho... E a falta de louça.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Impulso das três da manhã

Não estava mais com sede... Mas de qualquer forma seria melancólico ver o fundo desse copo. Marcaria o fim de algo.
A dor de estômago que me gerava a falsa fome corria garganta a fora causando o enjôo familiar. É a sensação que sempre acompanha o fim do riso.

Saio do cômodo vestida de vermelho, a mais bela blusa vermelha que tenho. Como se fosse importante pavão para que todos olhassem a vermelhidão que passava.
Prepotência engarrafada. Bebo sem querer ver o fundo da taça.
Seria lamentável que o caminho acabasse.
O corredor parecia enfumaçado e eterno, os padrões quadriculados do chão me causavam risos pulmonares. Preto, branco, preto, branco. Era o jogo de xadrez humano e eu uma peça vermelha.
Os passos intermináveis iam felizes pelo corredor tão interminável.
Passos que batiam ocos no chão, ora pulando nos quadrados brancos, ora nos pretos. Uma amarelinha descolorida que ganhava de fundo uma trilha sonora descompassada com o ambiente.
Desafinada para a falta de fim do momento.
Não ouvia a música, os passos, as conversas, podia apenas escutar o vermelho que me deu ares poderosos.
Tinha cheiro de baunilha e notas semi-breves.
Se o jogo de xadrez acaba logo adiante encontro outro tabuleiro para prolongar a brincadeira.

Entro no cômodo vestida de preto. A blusa mais comprida que tenho, me esconde da esquina de outros olhos.
A chave tilinta no trinco. Grande demais.
É o vermelho de copas o preto de espadas em uma partida de Alice no país das Maravilhas. Puxo a carta que sustenta o castelo e pedaços pretos e vermelhos voam batendo os naipes pelo chão da sala.
Termina o líquido escuro do copo em um grito penetrante de felicidade pueril. É criança espremida em um canto qualquer do corpo. Suco.
A cama chama e chama...
Meu corpo procura a cama.
O lençol frio fez deixar os jogos e as roupas para trás...

domingo, 17 de junho de 2007

Obs

A.Q.I.P.

Detestando tudo q escrevo....

Sem mais.
Grata pela atenção

Copo de plástico

Estava diante de si, como sempre estivera. Diante da folha branca a mão branca segurava o grafite negro. Olhavam-se naquele diálogo intenso e mudo. Tanto a rabiscar e tão pouca destreza, tanto a contar e tão pouco conhecimento das palavras.
Chegou há tempo de tomar o último gole frio de café, daquele bule que acordou sobre a mesa solitário não fosse as xícaras que o acompanhavam, o par de xícaras um pouco envelhecidas pelo descaso.
O gosto amargo do sorvo seco ainda estava em algum lugar do céu de sua boca. Masca. Masca. A saliva seca que não consegue engolir, resseca nos cantos dos lábios opcaqueados.
Mente inerte lhe parecia tão prolixa naquela manhã.

As Pessoas dentro dela conversavam se atropelando, guimaraniando palavras, euclidiando fatos sertanejos de terras, homens e lutas, clariceando epifanías, cabraliando de melo suas retiradas da vida tão severina, tossindo a manuel suas dores e alvareziando seus amores inatingíveis.
Fechava os olhos tentando filtrar uma ou outra voz, aquela idéia mais tétrica, quem sabe a mais bonita dentre elas. Ouvia aquele murmúrio recorrente, mas o ignorava. Farta, estava farta dele.
O olho escapou da folha para encontrar a mancha seca de vinho sobre a mesa. Arrumar as coisas, limpar o derramado... Não.
Sangue querido envelheceu.

O sussurrar aumentava.

Sobre a mesa taça de cristal, quase transparente a permitia ver o outro lado da sala... Destorcido...

Já era fala clara...

O cálice nas mãos. A pressão dos dedos.
Cálice.
Era grito.
O grito tilinta os cacos no chão.

Linda morte de pequenos brilhos.

Os cotovelos cederam mais uma vez as vozes.
Ta-que-car-di-a. Costura a mortalha com imagens moídas.

A epopéia tornou-se tediosa. Talvez apenas preferisse pensar assim...
Noite de olhos verdes a uma breve eternidade de tempo... Batida e abatida.
Entre a verdade e a mentira pendulava. O tempo a dava tempo para criar, fertilizava-lhe os campos mentais e de lá brotava os gestos inexistentes, as meias palavras quase belas...
As mãos se apertavam em reza à moda Augustiana cética como seus anjos. Era, porventura, exatamente assim, poesia-nojo, belo-desesperador.

Libertinagem, que os amantes não cabiam nas mãos, nos pés e em mais nenhuma parte de seu corpo. Gastos, enrugados... E ainda assim ecos de uma manha de outono amarelada.

Nada lhe dizia muito sobre nada.
Conquista e enjôo, tudo lhe parecia um breve suspiro de interesse.
Dominação. Provação. Abandono.
Jogar seu próprio jogo a permitia quebrar suas próprias regras.

Aqueles olhos oblíquos e dissimulados ao melhor estilo Machadiano dotados da mais incrível ressaca. O estomago revirava, a cabeça doía, vomita logo as palavras roubadas.
O espanto. E ficara para trás.
Amor verdadeiro que durou um segundo.

Desperta sempre em um baile de mascarás vienenses. Encantada com os movimentos dos vestidos que não sabe usar... Com os sorrisos todos iguais... Os olhos que revelam o que se esconde por debaixo da fantasia.

Rasga a roupa no poente...
A música se foi em um estalo surdo, mas... Ainda dançam na mudesa.
É belo.
Batem a porta outros corpos que nada tocam, apenas a fer(a)-ida.

O corpo
A carne
A fome
A carne
O desejo
A carne

Presa ao espectro metalizado em zinco viu-se de novo consigo.
Aquilo tão remoído e editado que era obra prima.
O lápis no chão e o papel em branco.
O texto pronto.

Levantou limpou a mancha de vinho, levou o bule de café para a cozinha deixando ali apenas os cacos do cristal.

domingo, 10 de junho de 2007

Isto não é um porta retrato

Chorei
Naquelas páginas
Lágrimas sinceras
(Quase) feitas de amor

Lembranças entorpecidas
Prazer mórbido perdido
Daquilo que ruiu

Morreu

Minado e invadido
Matado e morrido

Vê.

Amei quatro homens na vida
O primeiro, errado
O segundo, inocentes
O terceiro, sentimento doente
O quarto exemplo condecorado

Nesse pentágono
Ninguém foi capaz de amar
Capazes de quase amar
(Talvez)

Amamos a nós mesmos ou
Odiamo-nos uns aos outros
Como quaisquer
Simples
Seres humanos

Vivi

Quatro vidas
Oito filhos
Agora mortos

Diferentes profissões
Punhais todas
Crava as costas curvas

Mudei, pirei, renasci
Para que fosse possível...
Viver (?) novas vidas



A foice
Não é o rompimento
Tão pouco o quase amar

Cavalga a morte em uma fênix
Do pó ao pó
O saber urobórico

Sabendo que não será,
Dizer sem significar
Acreditar...
Eterno

Tatuagem, cicatriz e lembrança

Nós...
Acabáveis.

Quartos que não entrei
Camas que não dormi
Corpos que não possui

O que neguei
Perdi e me perdi

Acreditar
Naquilo que não se vê



Anti-ceticismo
Esquartejado

A cobra
Sempre alcança o rabo

Tendencioso e viciado
Apaixonado

E volto
Para a antiga e querida

Nova vida

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Árvores

Meu destino foi pago para ser visto nas estrelas

Longe

Da hiper-atividade dos oito anos incompletos
Lembro do homem envelhecido e manco porta dentro entrando

Sentou e nada do que foi dito me pareceu relevante
Eu pulava atrás dos sofás
Gente desconhecida atraia minha atenção

“Ela vai gostar muito de plantas”

Ao que eu respondia

“Gosto de animais”

Seus olhos jamais pousaram sobre mim
E dirigida diretamente nunca uma frase

Disse à mamãe
“Melhor que ela vá para o quarto, vou falar sobre você agora”

Assim saí, fui dormir... Pensando que não gostava de plantas.

Quantos anos depois o assunto me acometeu
Que tinha sido feito de tudo aquilo?

Mas... me contaram
Meu destino estelar nunca foi escrito, o de mamãe jazia em casa solitário

Sobre mim mais foi dito, a apenas um par de orelhas que não quis falar sobre o assunto

A boca havia morrido
Minhas estrelas enterradas ali

Os olhos de mamãe vezes recaem sobre mim oblíquos
Acompanhados de suspiros lamentantes
Ou de sorrisos pregados

Despedem–se logo para cuidar de si

Deixa a noite em seu lugar

Uma estrela pode ter morrido...?
Que foi feito então de meu destino?!

Planta a vida aqui para ser mantida no lugar